Vado da Farmácia: o remédio amargo e os efeitos colaterais

Paulo Rocha – Quando a gente pensa que já viu tudo nesta vida, vem Vado da Farmácia, prefeito do Cabo, e demite de uma vez só 828 funcionário (segundo a Folha PE) de uma tacada só, incluindo todos os secretários municipais. O fato aconteceu dia 05 de janeiro, pegando muita gente ainda de ressaca das festas de ano novo.
Mesmo exonerado, coube ao Secretário de Imprensa Carlos Sinésio espalhar notas pouco convincentes sobre a atitude do ex-pupilo de Lula Cabral: a justificativa até o fechamento desta edição foi a de enxugar a máquina, embora não se entenda porque deixar acéfalas as secretarias e porque mandar embora tanta gente de uma vez só.
Colocada como “responsável e corajosa”, a medida só confirmou a impressão geral de que o gestor não tem a mínima condição de gerir uma das grandes cidades da Região Metropolitana do Recife, que abriga grande parte do território empresarial de Suape (o lado vencedor) e é carimbada nos programas policiais como A cidade da morte (o lado perdedor).
Que a chamada Crise lançou suas asas sobre os municípios é obvio, mas gestos tresloucados e antimidiáticos como este não ajudam em nada nem o município, que fica à deriva, nem o gestor que dizia até pouco tempo que disputaria a reeleição.
A medida intempestiva, além de colocar um ponto final nas pretensões de Vado à reeleição, foi um prato cheio para oposições de todos os matizes, incluindo aí os inimigos que dormem na mesma trincheira.

A vice
Edna Gomes, vice-prefeita que abandonou o barco assim que detectou o primeiro buraco no casco, publicou logo uma nota de repúdio, onde se declara indignada mas ressalta que o orçamento previsto para 2016 subiu de 600 milhões (em 2015) para 755 milhões (em 2016), uma alta de nada menos que 25% em números redondos, algo como duas vezes e meia a inflação do ano. A Prefeitura do Cabo não contestou estes números. Também lançou uma rede de suspeitas sobre as aquisições materiais do atual prefeito, citando a compra de jetski, motos, apartamento, casa de campo e “otras cositas más”, a seu ver incompatíveis com o salário de 15 mil do prefeito.

O mentor
Já Lula Cabral, conhecido e reconhecido como o “inventor” de Vado da Farmácia, também não poupou críticas ao ex-aliado, dizendo que ele rompeu uma aliança já no segundo mês do mandato, dizendo, por linhas tortas, que também foi traído.
Já Betinho Gomes, filho do gestor de Jaboatão Elias Gomes e quer ser califa no lugar do califa do Cabo de qualquer jeito, chamou em nota o prefeito Vado de incompetente e incapaz, fazendo um viés eleitoral para atacar Lula Cabral (arqui-inimigo dos Gomes e principal adversário de Betinho nas próximas eleições), atribuindo ao ex-prefeito a culpa de toda a “tragédia” vivida pelos cabenses.

Bocão
O presidente da Câmara de Vereadores do Cabo de Santo Agostinho, Anderson Bocão (que não se operca pelo nome) também não deixou passar o bonde, garantindo (dia 06 de janeiro) que acionaria o Ministério Público, para solicitação de contratos de funcionários e de fornecedores. “Queremos ter acesso às contas da Prefeitura, aos contratos de fornecedores e de funcionários”, afirmou Bocão. Coisas que deveriam estar no Portal da Transparência do município, não é mesmo, nobre vereador?
Embora Vado da Farmácia fosse declarado, no início da crise, como se estivesse “em lugar incerto e não sabido”, a Prefeitura do Cabo soltou algumas notas oficiais, primeiro dizendo que o objetivo da gestão era reduzir em 40% as despesas com cargos comissionados, e que a economia seria de 10 milhões, dia 05 de janeiro. O que nos leva a pensar que a despesa com cargos comissionados é de estonteantes 25 milhões de reais anuais, e que os cargos, segundo as contas sugeridas pela nota, podem chegar ao número absurdo de cerca de 2 mil cargos comissionados!
Em outra nota dia 07 de janeiro, a Prefeitura do Cabo de Santo Agostinho repudia as declarações de Lula Cabral, acusando-o de “tirar proveito político” da atual situação de crise. A nota também diz que a vice-prefeita Edna Gomes “age a serviço do deputado Cabral” e que torce pelo “quanto pior, melhor”.

Outros casos
A atitude do prefeito Vado da Farmácia não é inédita. Outras prefeituras já tomaram a mesma medida, embora sob situações diferentes. Cabo Frio, “xará” do Cabo de Santo Agostinho, começou a demitir dia 06, um dia depois de Vado, nada menos que cinco mil comissionados e contratados, além de pedir, gentilmente, que os secretários entregassem o cargo. Outros prefeitos país afora estão usando o mesmo expediente, desde meados de 2015.

Vamos pensar?
O subterfúgio do “Cargo Comissionado (CC)”, usado em todo o país e em todas as instâncias  para encaixar amigos, colaboradores, cabos eleitorais, amigos, parentes e apaniguados de vereadores, restos mortais de perdedores coligados, nunca foi uma coisa assim, tipo “republicana”. Incha as máquinas com fantasmas ou com incompetentes e deslocados, apenas para contemplar um possível apoio político, ou anterior ou posterior. É uma excrescência que precisa ser deletada do serviço público ou reduzida ao estritamente necessário, aos “Cargos de Confiança” que devem ser limitados por órgãos como o Supremo Tribunal Federal ou outro órgão com poderes para tanto.

O povo
Apesar das primeiras manifestações indignadas, devagar silencia o povo cabense, muitos preocupados não com o ocorrido, mas com as possibilidades de um novo mandatário. Vão seguir este ou aquele candidato e vão babar com suas promessas, sem seguir o próprio caminho.
A grande possibilidade para 2016 é o Cabo de Santo Agostinho fazer suas apostas na “mudança” (Betinho Gomes) ou na “certeza” (Lula Cabral). Divididos, vão usar ou azul ou vermelho, vão defender , vão brigar, ostentar bandeiras e adesivos, a maioria sem saber que são faces da mesma moeda.