Artigo: O reacender das luzes

Roberto de Queiroz*

Na crônica “No apagar das luzes”, publicada no portal Nova+, em 22/12/2015, Admmauro Gommes assevera que, atualmente, “pedaladas” é um vocábulo “sujo” e não dá nem para limpá-lo por meio de um “lava-jato”, uma vez que o último vocábulo carrega em si uma carga de sujeira de maior tomo que o primeiro. Creio que, pelo andar da carruagem, toda a roupa mal lavada, ou melhor, suja, continuará de molho até as festas juninas. Depois desse período, ficará de molho novamente. E, infelizmente, pensar assim não é pessimismo. Eu chamaria de previsão factual.
Para Jorge Hélio, “o futuro é o passado andando de costas”. E, tendo em vista o cenário da política nacional contemporânea, cabem aqui as palavras do cônsul romano Marco Túlio Cícero (106 a.C. - 43 a.C.), que, embora escritas há mais de dois mil anos, ainda hoje são repetidas e parecem ter sido escritas em nossa era. Refiro-me às “Catilinárias”, sentenças acusatórias de Cícero contra Lúcio Sérgio Catilina, declaradas em pleno senado romano. Ali, Cícero expôs publicamente a dissimulação do líder da conspiração frustrada, Catilina, que insistia em frequentar o senado, apesar dos crimes que cometera. Logo no primeiro discurso, de um total de quatro, Cícero faz as seguintes indagações a Catilina: “Por quanto tempo ainda há de zombar de nós essa tua loucura? Não sentes que os teus planos estão à vista de todos?”
Do ponto de vista bíblico, a corrupção nasceu com Eva, implementou-se com Adão e, consequentemente, com seus descendentes (cf. Gen. 3.1-22). A corrupção é, então, uma praga que vem se alastrando desde os primórdios da humanidade. Por isso, concordo com a tese de que “o homem não se assombra de sua própria ganância” (Rui Barbosa).  Porém discordo desse célebre intelectual, quando ele afirma que, de tanto ver prosperar a desonra, a injustiça e os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto. Ao contrário, de tanto ver essas mazelas sociais e de tanto conviver com elas, o homem passa a agir por mimetismo. Como resultado, sua consciência adormece e ele passa a achar isso normal.
Por fim, parafraseando Marina Colasanti, eu digo que o homem se acostuma com essas coisas, mas não deveria... E asseguro que ainda não rimos de nossa honra nem termos vergonha de ser honestos. Assim, espero que o apagar das luzes deste final de ano seja breve e que estas, ao serem reacesas, tragam consigo as luzes da revitalização da esperança.

* Professor e escritor. Autor de “Leitura e escritura na escola: ensino e aprendizagem”, Livro Rápido, 2013, entre outros.
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